Campanha internacional alerta ‘overdose’ de exames

Muitas pessoas acreditam que quanto mais exames sejam feitos, mais estarão entendendo e protegendo a sua saúde. Entretanto, sociedades médicas internacionais e brasileiras, como as de Cardiologia e Medicina Familiar, acreditam que este comportamento estimule o erro ao diagnóstico e por isso estão trazendo ao país a campanha norte-americana “Choosing Wisely” (escolhendo com sabedoria).

A campanha internacional foi iniciada nos Estados Unidos em 2012 e tem por objetivo alertar as pessoas sobre o risco da chamada “epidemia de diagnósticos”. A epidemia de diagnósticos seria o excesso de exames, que poderiam levar a uma “overdose” de tratamentos desnecessários, e que poderiam sobrecarregar o organismo das pessoas, afetando a sua saúde.

Segundo Luís Cláudio Correia, cardiologista do Hospital São Rafael, em Salvador, e um dos responsáveis por trazer para o Brasil os conceitos da “Choosing Wisely”, 50% das intervenções coronárias nos Estados Unidos são inadequadas ou incertas. Ele critica o excesso com que alguns profissionais trabalham, tentando parecer competentes.

“Vivemos de procedimentos realizados. Às vezes, a remuneração por exame é baixa, então muitos são pedidos, o que é uma distorção”, critica Correia.

 

André Volschan, um entusiasta da campanha, afirma que procedimentos só se justificam se puderem aumentar a expectativa ou a qualidade de vida do paciente, pois muitos têm efeitos colaterais. “A cada mulher salva da morte por câncer de mama, muitas outras sofrem biópsias, que são procedimentos invasivos. O mesmo ocorre com a próstata. Intervenções devem ser bem avaliadas, pois levam a problemas permanentes, como impotência sexual, explica ele.”

Clóvis Klock, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia, também acredita que por meio de técnicas precisas de diagnósticos e cirurgia, cura-se mais o câncer do que há 30 anos e afirma que o rastreamento de doenças de acordo com faixas etárias e perfis adequados só gera benefícios às pessoas.

 

Lista de exames
A campanha no Brasil tem apoio da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) que adotou a mesma estratégia da norte-americana, impulsionada pelo Conselho Americano de Medicina Interna.
O objetivo é estimular as sociedades médicas a criarem listas de procedimentos a serem evitados.

A Sociedade Brasileira de Cardiologia, por exemplo, em sua lista recomenda que seja deixada de lado a colocação de “stents”– pequenos tubos que abrem vasos entupidos por placas de gordura no coração, em pacientes assintomáticos.

“O procedimento é invasivo, obriga a pessoa a ficar usando remédios e não previne infartos, mesmo em quem tem grande placa. O ‘stent’ só é indicado para melhorar a qualidade de vida de quem tem dor em repouso e outras situações específicas, como no pós-infarto”, explica Luís Correia.

 

Prevenção
A conversa entre médico e paciente é importante para que sejam tomadas decisões adequadas de acordo com cada caso. Em seu consultório no Rio, o angiologista e cirurgião vascular Eduardo Fávero dedica tempo à troca de ideias. “As pessoas sempre pedem exames. É mais fácil, porém errado, preencher uma guia em dez segundos do que explicar, em dez minutos, por que determinado teste não é indicado”, afirma.

Uma doença de manejo discutido é a embolia pulmonar, cujo tratamento inclui substâncias que aumentam o risco de sangramento. “Há questionamento sobre a necessidade de se tratar embolias de pequena repercussão clínica, porque as hemorragias teoricamente são mais perigosas do que a doença em si”, afirma Volschan.

Com a tomografia computadorizada de tórax, a incidência do problema aumentou 80%, dos anos 1980 para os 2000. “Na teoria, quando há mais pessoas se tratando, a mortalidade cai. Mas esta taxa continuou igual, e as complicações por sangramentos aumentaram 70%.”

 

A campanha no Brasil
“O trabalho agora é envolver sociedades de outras especialidades, para que façam suas listas”, diz o clínico-geral Guilherme Barcellos, coordenador do Programa de Medicina Interna Hospitalar do Hospital Divina Providência, em Porto Alegre (RS), e que também trouxe conceitos do “Choosing Wisely” ao Brasil.

Pesquisador da Fiocruz, Josué Laguardia diz que está em desenvolvimento uma página do “Choosing Wisely Brasil”, onde haverá informações sobre o uso inadequado de procedimentos diagnósticos.

A campanha, segundo Volschan, não pode ser entendida como uma recomendação de abandonar a medicina preventiva: “O que buscamos é o uso dos exames de forma racional. Medicina não é assinar pedidos de ressonância.”

Fonte: BBC

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