Cientistas fazem crowdfunding para criar teste que identifique o Zika vírus

Pesquisadores se dedicaram mapear 40 variedades do Zika vírus na primeira fase de pesquisa.

Pesquisadores de Israel, Reino Unido e do Brasil estão arrecadando dinheiro por meio de um crowdfunding, na internet para pesquisa que pretende desenvolver um teste rápido e barato para detectar a presença do Zika vírus na saliva humana.

Crowdfundig

Mesmo com a disponibilização de milhões de reais pelo governo federal e outras organizações internacionais para financiar pesquisas relacionadas ao vírus zika e ao mosquito Aedes aegypti, a equipe responsável pelo projeto escolheu o crowdfunding, uma forma de arrecadação online, para conseguir recursos destinados à segunda fase da pesquisa.

Esse método é popular para que músicos criem novos discos ou cineastas obtenham dinheiro para um documentário, por exemplo, mas também encontra espaço na comunidade científica.
Ele é feito pela internet, onde é publicada uma proposta resumida com os objetivos e o orçamento do projeto.

Caso o estudo tenha êxito, a promessa da equipe é tornar público os testes, na internet e de forma gratuita, todos os resultados e métodos obtidos, para serem reproduzidos em qualquer parte do mundo.

Processo

Para isso, a primeira fase da pesquisa se dedicou a reunir todos os 40 mapeamentos de variedades do zika feitos no mundo até agora e a cruzar informações para saber que parte do RNA é inconfundível – ou seja, só tem nesse vírus específico, inclusive em comparação com humanos e o mosquito Aedes aegypti, transmissor da doença.

Segundo Gilas Gomé, pesquisador-chefe do projeto e professor da Universidade de Tel Aviv, em Israel, fazer diagnósticos para identificar esse RNA pode-se ter um resultado muito mais preciso, pois trabalha com o RNA do vírus e não com a proteína que ele produz ou que o seu corpo produz quando tem o vírus.

A precisão e o custo baixo estão entre os principais fatores buscados no projeto, que são também os dois maiores defeitos dos testes usados atualmente para a detecção do zika e das outras arboviroses, dengue e chikungunya, de acordo com os estudiosos.

“A gente tem reação cruzada. Isso significa que a pessoa tem dengue e o diagnóstico mostra que ela tem zika ou vice-versa. Esses testes não são precisos. Isso acarreta um manejo clínico alterado. O tratamento é diferente”, analisa Maria Amélia Borba, biomédica e estudante de doutorado do Laboratório de Imunopatologia Keizo Asami (Lika), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), que também argumenta que o novo teste pode ajudar pesquisas sobre problemas neurológicos e sua relação com o vírus.

“Pra gente saber se o zika realmente está ligado à microceflia e malformação fetal temos que ter certeza absoluta que é zika, então a precisão é muito importante”.

Como funcionaria o teste?

Depois de conseguir isolar a sequência genética, a ideia dos cientistas é usar uma tecnologia simples e barata para identificar a presença do zika na saliva.

Não seria preciso usar qualquer equipamento, laboratório ou profissional altamente treinado para a realização do teste. Bastaria colher uma amostra de saliva ou de excreção do nariz, colocar em um pequeno tubo de plástico com um reagente químico e pronto: se ele mudar para a cor indicada, a pessoa tem o vírus.

Não existem outros testes?

Os resultados dos testes que estão no mercado apresentam erros no diagnóstico. O objetivo do teste é chegar à precisão do resultado, oferecendo um custo baixo para os laboratórios e à população.

SEGUNDA FASE

O projeto começou em março e em maio entra na segunda fase, que é a de testagem do método em amostras de sangue, urina e saliva contaminadas e armazenadas no laboratório Lika, da UFPE. Isso acontece quando eles esperam otimizar os testes, estabelecendo as condições e os materiais ideais para a detecção, e criação de resultados para comparar com os métodos usados pelo mercado. Em experiências-piloto já feitas, o resultado saiu em até uma hora.

A última fase é levar o kit de testagem a campo para usar em humanos e mosquitos, o que, dependendo do valor arrecadado, pode ocorrer em dois meses, segundo Borba.

No futuro, a intenção dos pesquisadores é ampliar o teste para identificar também sinais de dengue ou chikungunya mas, para isso, segundo a biomédica, é preciso seguir os mesmos passos usados com o zika: reunir os genomas, comparar e achar uma peça-chave única para cada vírus, trabalho realizado por pesquisadores da área de computação ligada à ciência de duas entidades brasileiras, o Instituto Agronômico de Pernambuco (IPA) e a Universidade Federal Rural do estado (UFRPE).

Outro integrante da equipe, Alexander Kumar, médico britânico especialista em doenças infecciosas com base na Universidade de Leicester, no Reino Unido, acredita que o teste que está em desenvolvimento pode ter de 96% a 100% de precisão. Por isso, o britânico acha que o projeto pode não só contribuir para o combate ao vírus zika, mas “revolucionar” o diagnóstico de doenças infectocontagiosas em países pobres.

Mas por que captar recursos por meio de crowdfunding?

“A gente também submeteu o projeto a todos os editais que estão sendo abertos de verbas públicas, tanto federais quanto estaduais, porque nossa ideia é conseguir o máximo possível”, explica, Maria Amélia Borba.

O tempo de análise, aprovação e liberação do dinheiro leva bastante tempo, então com a situação de epidemia tripla – dengue, chikungunya e zika- é urgente, os pesquisadores entenderam que é seria boa opção recorrer à sociedade para que ela participe do processo, de modo que não fique caro para todo mundo e servindo também como meio de educar e conscientizar as pessoas.

Fonte: Reprodução
Fonte: Reprodução

Como funciona?

Os interessados contribuem com qualquer valor, e, no caso da pesquisa para desenvolver o teste rápido, é possível acompanhar diariamente tudo o que está sendo feito.

O projeto precisa reunir em 30 dias o total do valor solicitado, cerca de US$ 6 mil (R$20 mil), o que é considerado baixo pela comunidade cientifica. Em 48 horas os pesquisadores conseguiram 70% do orçamento necessário, ou US$ 4,2 mil. Os profissionais explicam que o dinheiro será usado para adquirir o material básico para construir os kits de testagem.

Fonte: Agência Brasil

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